Os Três Heróis Brasileiros

A Segunda Guerra Mundial é cheia de histórias de sacrifício e bravura, que nos lembram que, mesmo em um momento tão sombrio da História da humanidade, ainda havia pessoas boas e corajosas dispostas a dar suas próprias vidas para ajudar outras pessoas em perigo. A história dos Três Heróis Brasileiros fala sobre um ato de bravura de três jovens soldados mineiros da Força Expedicionária Brasileira que deram suas vidas por seu pelotão, tendo recebido o reconhecimento e o respeito até de seus inimigos.

O Três Heróis

A história conta que no dia 14 de abril de 1945, durante a batalha de Montese na Itália, três soldados da FEB, Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Baeta Cruz e Geraldo Rodrigues de Souza, teriam se perdido de seu pelotão enquanto o mesmo, ao avançar em direção ao objetivo, foi surpreendido por uma companhia inimiga, sendo alvo de fogo de metralhadora e de um intensa barragem de artilharia alemã. Os três pracinhas, que tinham ficado mais para trás, ao verem que seus companheiros estavam em perigo, teriam contornado a área em que seu pelotão estava e atacado a companhia alemã por uma outra direção, tendo os três lutado sozinhos contra a companhia alemã inteira. Os soldados teriam então atacado os alemães com tudo o que tinham, fazendo com que os inimigos acreditassem se tratar de uma companhia inteira de soldados brasileiros. Após esgotarem toda a sua munição, os soldados teriam empunhado suas baionetas e ido em direção aos alemães, ato que resultou na morte dos três pracinhas. O ataque teria distraído os alemães por tempo suficiente para permitir a retirada do pelotão brasileiro. Após terem abatido os três, os alemães teriam procurado pelo resto da companhia e ficado surpresos ao perceberem que não havia mais ninguém e que o intenso ataque havia sido feito por apenas três soldados. Reconhecendo a coragem e bravura dos brasileiros, os alemães teriam então enterrado os três em covas rasas, com três cruzes de madeira, nas quais teriam escrito “Drei brasilianische Helden”, “Três heróis brasileiros” em alemão.

As três cruzes de madeira. Fonte: http://www.portalfeb.com.br/contradicoes-historicas-da-feb-os-tres-herois-brasileiros-quem-sao/

As cruzes foram encontradas mais tarde por tropas brasileiras do 11º Regimento de Infantaria à beira de uma estrada, fazendo com que a história viesse a ser conhecida pelo Exército Brasileiro. Após o final da guerra os corpos dos três heróis foram levados para o cemitério de Pistóia, na Itália, onde também foram enterrados muitos outros soldados brasileiros, e foram trasladados anos depois para o monumento aos pracinhas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Monumento aos pracinhas, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. Fonte: https://medium.com/@diegocataldo/cobras-fumantes-na-segunda-guerra-mundial-d2ab1415261e

Controvérsias

A história, apesar de ter relatos orais e registros fotográficos que comprovam sua veracidade, ainda tem controvérsias sobre se os três heróis realmente foram os soldados Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Baeta Cruz e Geraldo Rodrigues de Souza. De acordo o site Portal FEB, os soldados, que realmente foram mortos em ação, foram agraciados com honrarias diferentes, o que não deveria acontecer se os três estavam na mesma ação quando foram mortos. Além disso, há um relato do Coronel Adhemar Rivermar de Almeida, então Chefe da 3º Seção, do 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria de que o soldado Geraldo Baeta da Cruz, padioleiro (soldado encarregado de remover os feridos do campo de batalha) da seção de saúde do 11º RI, teria sido morto enquanto ia em direção ao pelotão do tenente Ary Rauen, que havia sido alvo de um intenso ataque alemão.

Outro fato que gera controvérsia na história é o de que, nos registros da FEB, o local da morte do soldado Geraldo Rodrigues de Souza consta como a cidade de Natalina, na Itália, e não em Montese, como os outros dois. Por fim, o Decreto de concessão de medalha de Arlindo Lúcio da Silva registra que o soldado “foi agraciado com as Medalhas de Campanha, Sangue do Brasil de Combate de 1ª Classe” e diz:

“No dia 14 de abril, no ataque a Montese, seu Pelotão foi detido por violenta barragem de morteiros inimigos, enquanto uma metralhadora alemã, hostilizava violentamente o seu flanco esquerdo, obrigando os atacantes a se manterem colados ao solo. O Soldado Arlindo, atirador de F.A., num gesto de grande bravura e desprendimento, levanta-se, localiza a resistência inimiga e sobre ela despeja seis carregadores de sua arma, obrigando-a a calar-se nessa ocasião, é morto por um franco-atirador inimigo”.

Esta descrição não se encaixa no que é contado pela história, uma vez que é baseada em relatos de testemunhas e a história conta que os três soldados estavam sozinhos e foram mortos ao final da ação.

Os supostos três heróis. (Repare na seta no canto inferior direito da imagem, apontando para o registro do local de morte de Geraldo Rodrigues como Natalina.) Fonte: https://medium.com/@diegocataldo/cobras-fumantes-na-segunda-guerra-mundial-d2ab1415261e

O Portal ressalta que não tem a intenção de “desmerecer ou duvidar dos méritos dos nosso soldados”, mas de “entender os fatos” e esclarecer de forma justa a verdade sobre os reais envolvidos na história.

Outro episódio parecido

Há, por coincidência, outro registro de um caso parecido com o dos três heróis brasileiros, em outra batalha, em Castelnuovo.

Após a vitória a FEB na batalha de Castelnuovo, em março de 1945 (antes do episódio em Montese), soldados brasileiros encontraram uma cruz de madeira com os dizeres em alemão: “3 tapfere Brasil 24-1-1945” (“3 bravos Brasil” em tradução literal), sendo que havia três pracinhas que constavam como desaparecidos em combate na lista da FEB desde janeiro daquele ano. Segundo Silveira (2001, pag. 177, apud MIRANDA), “Desde janeiro, três soldados do Regimento Sampaio figuravam na lista dos desaparecidos em combate: Cabo José Graciliano Carneiro da Silva, Soldado Clóvis Paes de Castro e Aristides José da Silva. (…) Essa singular homenagem feita pelo inimigo é uma eloquente demonstração da coragem do soldado brasileiro.”

Cruz encontrada em Castelnuovo. Fonte: http://www.portalfeb.com.br/contradicoes-historicas-da-feb-os-tres-herois-brasileiros-quem-sao/

Apesar disso, também não há nada que prove de forma incontestável que essa cruz se refira a esses três pracinhas.

Fontes:

MIRANDA, F. “Contradições Históricas da FEB: Os Três Heróis Brasileiros, quem são?”, Portal FEB [online], acessado em 27 de junho de 2020. URL: http://www.portalfeb.com.br/contradicoes-historicas-da-feb-os-tres-herois-brasileiros-quem-sao/

“Os 3 Heróis Brasileiros”, Hoje na Segunda Guerra Mundial, YouTube [online], acessado em 27 de junho de 2020. URL: https://www.youtube.com/watch?v=RtXSrGOwPDg

CATALDO, D. “Cobras Fumantes: a história dos “Três Heróis Brasileiros” na Segunda Guerra Mundial”. Medium [online], acessado em 27 de junho de 2020. URL: https://medium.com/@diegocataldo/cobras-fumantes-na-segunda-guerra-mundial-d2ab1415261e

3 comentários

  1. Excelente lembrança dos nossos pracinhas, que estavam com muito pouco material e o que tinha, de baixa qualidade. Mesmo assim, merecem destaque pela bravura em viajar para Europa, passar o frio que não estariam acostumados e lutar contra um exército muito bem preparado.
    Muito bom o post. Obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

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